O historiador Keith Thomas na obra “O homem e o mundo
natural” faz um interessante resgate do sentimento favorável aos animais e
plantas no entremeio do século XVI e XIX. Ele diz que o racionalismo da ciência
nascente elevou o homem à condição de cogitar a partir de um método que o tira
do mundo das coisas, colocando-o no patamar superior ao da natureza.
O interessante é que Thomas irá identificar na domesticação
de animais o espaço para uma sensibilidade nascente. Isso aconteceu com certos
camponeses que não se alimentavam de determinadas criações, mesmo sendo animais
para o consumo. Também o apreço por animais de estimação que cada vez dividem o
ambiente urbano com as pessoas. Essa relação de proximidade reforça o
sentimento é de amor e proteção, principalmente de gatos, cachorros etc.
Segundo Thomas, não houve uma espontânea percepção da
dignidade e respeito para com os animais. Houve sim o alargamento do campo
moral que revisou valores percebendo a capacidade de sofrer do animal, assim
permitindo o intercâmbio ético natureza-homem. Inclusive, é nesse clima
insurgente de sensibilidades que se se vê a própria dieta humana questionada
com o reforço do vegetarianismo no ocidente, fortemente vinculado à questão
moral de matar animais capazes de dor e sofrimento. Observa Thomas como é
interessante que a cabeça do animal cozido ou assado tem sumido da apresentação
culinária, antes era uma tradição no preparo e montagem de refeições. Muitos
dos consumidores de carne não se sentem confortáveis ou com apetite diante da
personificação (feições) do animal morto à mesa.
Thomas conclui que há uma questão chave nos dias de hoje
para a análise dos dilemas ambientais: como conciliar as necessidades modernas
para um desenvolvimento econômico e social com sentimentos e valores (éticos e
estéticos) contrários ao próprio mecanismo de produção de riquezas? Para
ilustra esse dilema o autor conta essa história: Uma criança alimenta-se de
carne em suas refeições, é medicada com substâncias desenvolvidas à custa de
experimentos com animais, assisti na televisão os apelos de proteção e amor à
fauna; no fim do dia leva para a cama e dorme afetuosamente com a representação
deles: os bichinhos de pelúcia.
Referência para saber mais:
THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural: mudanças de atitude
em relação às plantas e aos animais (1500-1800). São Paulo: Companhia das
Letras, 2010.
(Fonte da imagem usada neste post: companhiadasletras.com.br)
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